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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Carta do embaixador da Venezuela ao Estadão

22 julho 2010

A O Estado de S.Paulo

Sr. Ruy Mesquita — diretor de Opinião

Sr. Antonio Carlos Pereira — editor responsável de Opinião

Sr. Ricardo Gandour — editor de Conteúdo

Senhores,

É com grande preocupação e mal-estar que a República Bolivariana da Venezuela, por meio de seu Embaixador no Brasil, dirige-se a esse jornal, de reconhecidas qualidade e tradição entre os veículos da imprensa brasileira. E a razão não é outra senão nossa surpresa e indignação com os termos e o tom de que sua edição de hoje (20/07/10) lança mão para atacar o presidente de um país com o qual o Brasil e os brasileiros mantêm relações do mais alto nível e qualidade.

O respeito à plena liberdade de imprensa e de expressão é cláusula pétrea de nossa Constituição e valor orientador do governo de nosso país. A estas diretrizes, no entanto, cremos que devam sempre estar associadas a lhaneza na referência a autoridades constituídas – democraticamente eleitas — e a plena divulgação de todos os fatos associados a uma cobertura jornalística.

Cremos descabido que um jornal como “O Estado de S.Paulo” se refira ao presidente Hugo Chávez, eleito e reeleito pelo voto livre da maioria dos venezuelanos, com o uso de termos e expressões como ”lúgubre circo de Chávez”, “autocrata”, “protoditador”, “circo chavista”, “caudilho”, “lúgubre picadeiro”, “costumeira ferocidade”, “rugiu”, “toque verdadeiramente circense da ofensiva chavista – no gênero grand guignol”.

Mais graves ainda são a distorção e ocultação de informações que maculam os textos hoje publicados.

O presidente Hugo Chávez nunca “atropelou” a Constituição Bolivariana, instituída por Assembleia Nacional e referendada em plebiscito. Ao contrário, submeteu-se, inclusive, a referendo revogatório de seu próprio mandato, prática democrática avançada que pouquíssimos países do mundo têm o orgulho de praticar.

O editorial omite que o cardeal Jorge Savino já foi convocado pela Assembleia Nacional para apresentar provas de sua campanha difamatória frente aos deputados — também democraticamente eleitos –, mas o mesmo rechaçou a convocação. Prefere manter suas acusações deletérias a apresentar aos venezuelanos e à opinião pública internacional os fatos que lastreariam suas seguidas diatribes.

Outros trechos do texto só podem ser lidos como clara campanha de acobertamento de um terrorista, como o é, comprovadamente, Alejandro Peña Esclusa: “O advogado de Esclusa assegura que o material foi plantado pelos policiais que invadiram a casa de seu cliente –- considerando o retrospecto, uma acusação mais do que plausível” (grifo nosso)

Esclusa foi preso em sua residência em posse de explosivos, detonadores e munição, após ter sido denunciado, em depoimento à polícia, pelo terrorista confesso Francisco Chávez Abarca –- este criminoso, classificado com o alerta vermelho da Interpol, foi preso em solo venezuelano quando dirigia operação de terror, visando desestabilizar o processo eleitoral de setembro deste ano.

A prisão de Esclusa ocorreu de forma pacífica, com colaboração de sua família, e segue os ritos jurídicos normais: ele tem advogado constituído, direito a ampla defesa e será julgado culpado ou inocente de acordo com o entendimento da Justiça, poder independente de influência governamental ou partidária, assim como no Brasil.

Inadmissível seria o governo da Venezuela ter permitido que um terrorista ceifasse vidas e pusesse em risco a democracia, que nos esforçamos arduamente para defender, ampliar e aprimorar em nosso país, assim como o fazem, no Brasil, os brasileiros.

O “Estado de S.Paulo” tem pleno conhecimento desses fatos, tendo inclusive recebido, em 14/07/10 a Nota de Esclarecimento desta Embaixada, a respeito do desbaratamento da operação terrorista internacional que estava em curso (cópia anexa). O responsável pela editoria Internacional, Roberto Lameirinhas, inclusive confirmou seu recebimento à nossa assessoria de comunicação.

Daí manifestarmos nossa estranheza com a reiterada negativa do jornal em dar tais informações a seus leitores. E ainda tomando como verdade declarações do advogado do referido terrorista.

Temos certeza que os senhores não desconhecem, até pela história recente do Brasil, o quão frágil pode ser a liberdade diante do autoritarismo tirano da intolerância e do uso do terror como método de ação política.

Reafirmamos que não nos cabe emitir qualquer juízo de valor sobre as opiniões político-ideológicas do jornal dirigido por V. Sas., por mais que delas discordemos. O que nos leva a enviar-lhes esta correspondência é, tão somente, a solicitação de que se mantenha a veracidade jornalística e o respeito que se deve sempre às pessoas, sejam ou não autoridades constituídas, mesmo quando o jornal as considere, de moto próprio, como seus inimigos ou desafetos.

Esta Embaixada permanece à disposição do jornal e de seus leitores, para esclarecimentos adicionais sobre quaisquer dos assuntos supracitados, bem como de novos temas julgados pertinentes e reivindica, formalmente, a publicação da presente carta, com o mesmo destaque dado ao editorial de hoje, intitulado “O lúgubre circo de Chávez”, publicado à página A3.

Atenciosamente,

Maximilien Arvelaiz

Embaixador da República Bolivariana da Venezuela no Brasil

Brasília, DF

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A culpa não foi do Dunga porque não há culpados

Não, a culpa não foi do Dunga. O futebol é um esporte coletivo, o Brasil tinha onze jogadores em campo jogando contra outros onze jogadores. A Copa do Mundo é na verdade um torneio, com apenas sete jogos nos quais tudo pode acontecer. Precisamos lembrar que não somos o único país com um bom futebol no planeta. O que cabe registrar é que a seleção brasileira, dirigida pelo Dunga, classificou-se em primeiro lugar nas eliminatórias da Copa com três rodadas de antecipação, foi campeã da Copa das Confederações e da Copa América, com aquela mesma seleção eliminada.

Cabe também registrar que o Dunga deixa como legado uma seleção que se comporta como uma equipe. Diferente de 2006 quando tínhamos um amontoado de egos afagados pela publicidade e à disposição da rede Globo. Ter comprado briga com a Globo foi outro ponto positivo para Dunga: “ou é entrevista coletiva ou não há entrevista para ninguém”. Foi um treinador escalado justamente para botar ordem na casa e o fez. Portanto, por que gastar tanto tempo procurando um bode expiatório? A culpa não foi do Dunga porque não há culpados. A pátria de chuteiras perdeu um jogo, o Brasil não perdeu a sua soberania.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Hermanos son hermanos

Chama atenção o apelo que o mercado publicitário faz, durante esta Copa do Mundo, da rivalidade existente no futebol entre Brasil e Argentina. São 32 países no torneio da Fifa jogando na África do Sul, porém, tem-se a impressão que estamos em guerra contra o país vizinho. Companhias telefônicas, marcas de cerveja, lojas de departamento se empenham em vender seus produtos ridicularizando ou caricaturando os argentinos. Importante frisar, não são piadas com o futebol argentino, mas, com o povo argentino.
Embora sejamos o maior país da América Latina estamos, historicamente, de costas para o continente e agachados para a Europa e América do Norte. No atual contexto de multipolaridade da política internacional é extremamente estratégica a integração dos países latino-americanos, não apenas no aspecto econômico, mas também nos aspectos político e cultural, como aponta a Unasul, por exemplo. Sem Brasil e Argentina o processo de integração regional perde relevância. A quem interessa então a promoção de rivalidade entre nossos povos?
Latino-americanos, não apenas brasileiros e argentinos, enfretam problemas com causas e conseqüências semelhantes e vivenciam atualmente uma onda democrática e progressista, podendo pender positivamente a balança global para uma alternativa de sustentabilidade e justiça social.
É triste que conheçamos tanto os nossos colonizadores culturais e nos sintamos tão distantes de nossos vizinhos. É preocupante que falemos tanto em inglês e escutemos pouco em espanhol. Somos brasileños y latinoamericanos. Hermanos, compañeros, son hermanos!


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Oh Nikita era tudo mentira

Em novembro de 1985 o cantor inglês Sir Elton John lançava um disco com o sugestivo título de Ice on Fire. Na década de 1980, em alguns países latino-americanos, acontecia um lento e gradual processo de redemocratização e a Guerra Fria dava sinais de cansaço. Governava a URSS Mikhail Gorbatchov, que tinha assumido em março daquele ano. Gorbatchov ficou conhecido pela tentativa de modernizar (ou tornar mais ocidental) a União Sovitética, com reformas econômicas, conhecidas por Perestroika, e reformas políticas e sociais, conhecidas por Glasnost.

Em Ice on Fire a faixa Nikita fez grande sucesso e, ao passo que capitalismo dava sinais de que venceria o modelo estatal-burocrático em que tinha se transformado a URSS, Elton John cantava provocantemente: “Ei Nikita, está fazendo frio/ Em seu cantinho do mundo ? /Você pode rolar ao redor do globo/ E nunca encontrar uma alma mais calorosa para conhecer /Eu vi você ao lado do muro/ Dez de seus soldadinhos de lata em uma fileira /Com olhos que pareciam gelo pegando fogo/ O coração humano, um cativo na neve (...) Nikita eu preciso tanto de você”. No videocliple o personagem interpretado por John estava em um carro conversível, com ares de turista, fotografando, mostrando passaporte e cantado para uma militar soviética que estava na fronteira. A canção é isso: uma fronteira que ainda insistia em existir entre dois mundos.

Era uma grande ofensiva ideológica e, claro, a música e o cinema eram mobiliados. Faltava pouco para o capitalismo ficar sozinho em cena, “democratizar” todo o mundo e provar que o livre mercado fariam todos e todas felizes. O leste europeu certamente não apresentava o melhor modelo de alternativa ao capitalismo, no entanto, no semanário alemão Der Spiegel pode-se ler reportagem extensa em julho de 2009 em que tinha como chamada: “Maioria dos alemães orientais sente que a vida era melhor no comunismo”. Recentemente aqui no Brasil o jogador sérvio Dejan Petković foi perguntado pela apresentadora Ana Maria Braga como era ter vivido num país (a Iugoslávia socialista) com tanto sofrimento e respondeu, deixando aquela inteligente senhora sem graça, que não havia sofrimento algum, todos tinham casa e emprego, os problemas vieram depois... com o capitalismo. O que os habitantes dos países do leste europeu conheceram no capitalismo foi uma explosão de prostituição, tráfico de drogas, desemprego, niveis alarmantes de violência urbana, alcoolismo, etc.

Nikita, era tudo mentira, o nosso mundo, em nada, é melhor que o seu. A liberdade aqui é para poucos, só para os que têm dinheiro, assim como o consumo de todas as benesses que o capitalismo oferece. Nikita, pode ter saudades, não deveria ter acreditado no amor fácil do Elton John. Aqui tudo e todos viram mercadorias e mercadorias não podem ter felicidade. Oh, Nikita, era tudo mentira.

Nikita

Elton John

Composição: Elton John / Bernie Taupin

Hey Nikita is it cold
In your little corner of the world
You could roll around the globe
And never find a warmer soul to know

Oh I saw you by the wall
Ten of your tin soldiers in a row
With eyes that looked like ice on fire
The human heart a captive in the snow


Oh Nikita you will never know, anything about my home
I'll never know how good it feels to hold you
Nikita I need you so
Oh Nikita is the other side of any given line in time
Counting ten tin soldiers in a row
Oh no, Nikita you'll never know

Do you ever dream of me
Do you ever see the letters that I write
When you look up through the wire
Nikita do you count the stars at night

And if there comes a time
Guns and gates no longer hold you in
And if you're free to make a choice
Just look towards the west and find a friend


Oh Nikita you will never know, anything about my home
I'll never know how good it feels to hold you
Nikita I need you so
Oh Nikita is the other side of any given line in time
Counting ten tin soldiers in a row
Oh no, Nikita you'l never know

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Silêncio de biblioteca

As bibliotecas erguem-se como oásis em nosso meio. Em um mundo tão rápido, e também por isso extremamente superficial, as bibliotecas são uma charmosa resistência às facilidades do mundo virtual. São um espaço para a calma, a leitura sem pressa, a reflexão...

O silêncio de biblioteca é muito caro, diria caríssimo, àqueles que apreciam a boa leitura, que gostam de pensar e escrever... A propósito, ler, pensar e escrever são costumes de "pessoas estranhas" ignoradas e incompreendidas porque preocupam-se em adquirir mais conhecimento, em não se contentar com as migalhas de formação e informação a elas oferecidas. Que coisa! Não deveriam contentar-se com o Jornal Nacional?

Pois é! As "pessoas estranhas" são aquelas que, às vezes, fazem "psiuuu" pedindo o seu silêncio. Os que amam o silêncio de biblioteca tremem de indignação aos se depararem com alguns exemplares da espécie humana que deveriam habitar em algum zoológico e são irresponsavelmente soltos de vez em quando. Refiro-me aos sem educação e "sem noção" que conversam alto nas bibliotecas, escutam músicas nas bibliotecas, fazem lanchinhos com detestáveis sacos plásticos barulhentos nas bibliotecas, ficam desrespeitosamente descontraídos e, aos risos, em numerosos grupos nas bibliotecas. Enfim, aqueles que acham que o espaço público é a extensão da sala de suas casas. Ou seria jaula? Essa confusão entre público e privado é o germe de toda corrupção. Então, se você faz barulho em biblioteca não reclame de político corrupto. Ambos, ele e você, não respeitam a finalidade da coisa pública.

Façamos um movimento radical em defesa do silêncio de biblioteca! Vivemos numa sociedade em que pensar dá preguiça, dá sono, dá vontade de ir ao banheiro... Somos treinados ao entretenimento alienante do futebol e da novela. Portanto, não deixemos que as bibliotecas virem shopping centers ruidosos! Que possamos fazer muito barulho! Que possamos gritar! Que possamos nos fazer ouvir, mas nas ruas! Viva ao silêncio de biblioteca!